Data: 21/02/2024

Biólogos encontram espécie invasora em manguezais da Baixada Santista


Com 86 exemplares registrados, Sonneratia apetala é originária do Sudeste asiático e tem potencial de se espalhar muito rapidamente. Pesquisadores fotografaram os pneumatóforos da Sonneratia apetala Edmar Hatamura Durante uma operação de monitoramento dos manguezais no estuário Santos-Cubatão, os biólogos Geraldo Eysink e Edmar Hatamura encontraram flores totalmente desconhecidas para as árvores da região. Identificadas com ajuda da professora sênior do Instituto Oceanográfico (IO) da USP Yara Schaeffer-Novelli, a espécie exótica invasora Sonneratia apetala foi registrada pela primeira vez na América do Sul e tem preocupado especialistas por seus impactos negativos em ecossistemas nativos. Originária da Índia e de Bangladesh, a planta que possui flores chamativas é usada na China para recuperação de manguezais devido ao seu rápido crescimento e capacidade de retenção de solo. Sonneratia apetala, espécie exótica invasora descorta na Baixada Santista Edmar Hatamura “A hipótese mais provável é que ela chegou aqui em Cubatão principalmente devido ao grande tráfego de embarcações advindos da China ”, conta Hatamura ao esclarecer que o transporte pode ter acontecido por meio da água utilizada pelos navios para estabilização. De acordo com Geraldo Eysink, atualmente há 86 exemplares da planta na região e muitas delas foram encontradas nas margens dos rios Cubatão e Perequê. Os pontos rosa indicam onde as plantas foram encontradas, com alguns locais tendo mais de 20 delas Jornal da USP "Em uma única árvore foram coletados 1.080 frutos, em cada fruto tem entre 60 e 80 sementes. Então imagine a capacidade de dispersão dessa espécie e é a primeira constatação na América do Sul. Na China, onde ela foi usada, as pessoas já estão com projetos de erradicação porque perceberam que o dano ecológico foi bastante significativo", comenta Geraldo. A espécie A Sonneratia apetala, também conhecida como mangue maçã, é uma árvore de mangue da família Lythraceae nativa do Sudeste Asiático, com presença em países como Índia, Sri Lanka, Tailândia, Malásia, Indonésia e Filipinas. A espécie de porte médio, que pode alcançar até 20 metros de altura, possui um sistema radicular do tipo pneumatóforo que se estende até o solo lodoso, folhas ovaladas de cor verde brilhante e flores grandes e vistosas de cor amarela que, de acordo com os especialistas, chamam bastante atenção. Nativa do Sudeste asiático, árvore pode alcançar até 20 metros de altura Edmar Hatamura Consequências De acordo com os pesquisadores, a presença da planta no Brasil representa uma ameaça direta à biodiversidade local, ao competir por espaço e recursos com os gêneros nativos de manguezal, considerado Área de Preservação Permanente (APP), conforme a legislação nacional. "A cada dia que não se adota uma medida exemplar de erradicação dessas árvores, nós estamos perdendo na competição com elas pelos mangues brasileiros e por outras áreas também", afirma Yara em entrevista ao Terra da Gente. Sonneratia apetala foi registrada em manguezais no estuário de Santos Edmar Hatamura Ao ocupar o lugar de plantas nativas dos manguezais, a Sonneratia apetala pode comprometer a estabilidade do bioma. "Os manguezais prestam diversos serviços ecossistêmicos, como fixação de carbono, berçário para espécies marinhas de interesse econômico e proteção contra erosão”, explica. Além disso, muitas comunidades tradicionais e de pescadores dependem dos mangues para garantir seu alimento. Para Yara e os outros biólogos, a descoberta da invasora realça as preocupações com fragilidade do ecossistema e a importância de monitorar espécies exóticas invasoras no país. Manguezais prestam diversos serviços ecossistêmicos ao planeta e aos seres humanos Geraldo Eysink Medidas necessárias Edmar Hatamura comenta sobre a existência de uma série de normas internacionais pra evitar contaminação de ambientes através da água de lastro dos navios, mas pouco se fala sobre o cumprimento dessas normativas entre os países. "Colegas nossos dos Estados Unidos já estão ficando preocupados com a possibilidade de sistemas semelhantes, transportes semelhantes, levarem sementes ou propágulos da espécie também ao litoral estadunidense", diz a professora ao complementar que a preocupação não é exclusivamente para os manguezais da Baixada Santista. Sob justificativa de restaurar áreas degradadas, Yara relata que espécies exóticas acabam sendo transportadas e introduzidas em todo mundo. Medidas como a remoção manual das plantas invasoras e outras técnicas devem ser consideradas Edmar Hatamura "Na realidade, essas pessoas não estão restaurando coisa nenhuma, mas trazendo um invasor, um inimigo oculto. Estamos falando de manguezais que ocorrem do Oiapoque, no Amapá, até Laguna, em Santa Catarina. Monitoramento custa caro, tem que ser feito com embarcações alugadas, com gente competente, pelo menos nos maiores portos brasileiros", acrescenta Yara. Geraldo destaca que, como a agressividade da espécie é muito evidente e ainda temos condições de erradicá-la, urge um plano de gestão e uma aprovação do Ibama para remoção da espécie no menor tempo possível. Caso contrário, a espera pode dificultar o trabalho, na medida em que aumenta o custo de remoção. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente